Precisamos falar sobre Cícero

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(Foto: UOL)

Meio-campista goleador, polivalente, hoje experiente e dono de boas inversões de jogo. Neste último quesito, inclusive, Cícero liderou as estatísticas do Paulista. Também foi um dos maiores passadores do torneio regional. Peça de confiança do atual treinador são-paulino, Cícero não deve ter vida fácil no Campeonato Brasileiro. Sem render por não mais jogar onde jogava nas primeiras partidas do ano, o sucesso do atleta está vinculado às escolhas de Rogério.

Cícero começou muito bem a temporada. Um dos últimos reforços a chegar, não foi inserido no time logo de cara. Cícero teve de esperar até entrar no ritmo dos demais durante a pré-temporada. A lesão de Nem no primeiro jogo do ano contra o Audax forçou o meio-campista ao teste de fogo. Desde esse jogo, raros foram os momentos onde o São Paulo esteve em campo sem o seu camisa de número 8.

Muitos jogos se passaram até surgir uma unanimidade: Cícero não deve mais ser titular. Pouco participativo com a bola e quase uma peça nula sem ela, o jogo aéreo, as inversões de bola em momentos delicados (fundamentais ao time) e a estrela de ser alguém decisivo são os únicos fatores que o mantém na equipe. Diante de tantos detalhes negativos, eu poderia muito bem chegar aqui e repetir tudo aquilo que leio e ouço. No entanto, minha função não é exatamente essa. Estou aqui prioritariamente para analisar futebol de outros ângulos.

Minha análise não é nova. Quem me acompanha no twitter – @sergioricadojr, para quem quiser também -, já tem ideia do que levou Cícero a cair tanto de rendimento no São Paulo. Nas minhas observações, a queda do veterano jogador aconteceu a partir do momento no qual Jucilei toma a titularidade do agora quase ex-são-paulino João Schmidt. Com o novo titular, Cícero teve suas funções em campo alteradas. Azar o dele.

Parece até estranho pensar que um jogador muito mais forte e defensivo seja capaz de prejudicar outro que precisa de proteção​, mas acontece. Quando dizemos que nada é simples dentro do jogo de futebol, e que tudo pode ser motivo para desequilíbrio, falamos motivados por esse tipo de situação-problema. Posições e funções são coisas diferentes. Cícero segue, com Jucilei, jogando na mesma posição, só que com funções completamente opostas.

Não estou dizendo que Jucilei ou Rogério sejam culpados pelo momento ruim de Cícero. O jogador é responsável pelos maus e bons momentos que vive, mas nem sempre está errando sozinho. Quando Cícero jogava com João Schmidt sendo o primeiro volante, não tinha a responsabilidade de ser o homem do primeiro passe. Cícero servia como apoio para João, assim como Thiago Mendes pelo lado inverso. Isso mudou com Jucilei.

A partir do momento que Jucilei entra no time, e o São Paulo cresce defensivamente, o responsável pela saída de bola, pelo primeiro passe e pela armação nas primeiras linhas passa a ser o camisa 8. O São Paulo ganha um compulsivo ladrão de bolas com imensa capacidade de desarmar no meio, mas perde um passador. Cicero, com outras responsabilidades, passa a jogar mais longe do setor vital do jogo que é zona de transição entre defesa e ataque e fica sobrecarregado. O São Paulo perde uma peça ofensiva e não ganha um defensor.

(Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

Jucilei não é capaz de fazer aquilo que João Schmidt faz, e João não saberia jogar como Jucilei joga. Cícero, coitado, ficou no meio dessa troca e teve uma interferência gigantesca no seu jogo. O não rendimento dele tem explicação, não é algo aleatório, tem motivações táticas envolvidas. Tanto que se formos pegar o último bom jogo do volante, vamos até Belo Horizonte, quando João Schmidt voltou ao time titular na partida de volta da Copa do Brasil contra o Cruzeiro. No Mineirão, Cícero participou dos principais lances ofensivos do time, pois estava perto do gol, com antigas funções restabelecidas.

Sem agregar tanto sendo dono do primeiro passe do São Paulo, a manutenção do atualmente inerte jogador entre os titulares está ameaçada e ninguém além de Rogério Ceni pode resolver questões táticas no clube. Cícero não assumiu a responsabilidade de iniciar as jogadas do São Paulo porque quis. Ele foi instruído a fazer isso. Ceni precisa, talvez, ser mais enérgico na cobrança por uma peça de reposição para João Schmidt ou desenvolver durante esse período mais longo de treinos uma outra solução para amenizar esses problemas. A atual não parece muito promissora. Expor Cícero e sobrecarregá-lo, aos 33 anos, é fazer o mesmo com as chances de ser competitivo do São Paulo.

O meio-campista deve ser criticado, mas também precisamos entender suas responsabilidades dentro do time para tentar compreender as raízes do momento ruim e não ser injusto. É muito fácil apenas apontar o dedo para o elo mais fraco de qualquer situação-problema dentro de um time de futebol que é o jogador.

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