Análise: São Paulo volta a cair na real; equipe precisa mudar muito para 2017

0
130
Os últimos 10 dias mostraram o São Paulo numa “vibe” errada: G-6, safra maravilhosa de Cotia que fazia repensar o planejamento de 2017, com menos contratações. Sob esse ponto de vista, nada melhor para o futuro do que mais um vexame, a primeira derrota na história para o América-MG, que era lanterna do Campeonato Brasileiro até o início da noite de segunda-feira.
O peruano Cueva fez grande partida, não merece uma crítica sequer. Mena, que já vinha de ótimo segundo tempo diante do Fluminense, e das jogadas dos dois gols sobre a Ponte Preta, também esteve presente em muitas chances desperdiçadas por David Neres e Chavez.

Poupados o peruano e o chileno, o resto do time repetiu a toada de todo o Brasileirão: uma performance técnica digna de segunda divisão. Não falta vontade, é bom que a torcida entenda e não insista nos tolos pedidos de “raça, raça, raça”. O que falta é qualidade, e muita.

As deficiências coletivas são claras. Aspectos quase obrigatórios do futebol moderno, e que podem, sim, ser alcançados mesmo com jogadores não tão bons, inexistem. Os dois vídeos abaixo mostram que o São Paulo não conhece triangulações.

Nesse primeiro, Cueva recebe na esquerda e toca para Kelvin. O atacante deixa a bola com Thiago Mendes (que é bom) e corre para trás da linha de marcação do América. Thiago Mendes passa para João Schmidt e fica parado. Depois, repete o gesto com David Neres. Nenhum jogador do São Paulo toca e se aproxima para receber de volta. Nenhum dos que estão enfiados dentro da área recuam para triangular. É o que grandes clubes vêm fazendo há anos. O buraco negro de criatividade termina num lançamento equivocado do zagueiro Maicon.

Acima, repare a falta de atitude dos tricolores quando Maicon recebe de Cueva. Ninguém se aproxima dele para receber e movimentar a defesa do Coelho, que está montadinha. Isso resume a chance de gol a um inesperado acerto do zagueiro, que erra na decisão e na execução.

Apesar de paupérrimo coletivamente, o São Paulo teve chances e mais chances, apoiado na fragilidade do adversário. As falhas individuais são responsáveis pela derrota.

O gol de Michael foi um desastre com protagonismo de Denis, grande desempenho de Maicon e participação especial de Rodrigo Caio. E só. Wesley, que perdeu a bola no ataque, não teve culpa nenhuma. Ele tentou o drible onde se deve tentar mesmo, no último terço de campo.

Rodrigo Caio longe de Maicon no gol do América-MG contra o São Paulo (Foto: Reprodução)Rodrigo Caio longe de Maicon no gol do América-MG contra o São Paulo: falha de cobertura (Foto: Reprodução)

A imagem acima mostra como Rodrigo Caio (que é ótimo) está longe de Maicon quando seu companheiro erra o tempo de bola – aliás, por onde anda aquele zagueiro exuberante da Libertadores?. Rodrigo disse que acreditava no desvio de Maicon. Errou. Fica a lição. A sequência e a falha de Denis estão no vídeo abaixo, e merecem outra observação: não são os primeiros pontos que o São Paulo perde no Brasileirão por erros de seu goleiro.

A trapalhada defensiva não seria decisiva se o ataque tivesse aproveitado suas chances. Aqui cabe a maior crítica à diretoria são-paulina: não se pode começar um ano com Calleri, Ganso, Alan Kardec, Kieza, Rogério e Centurión, e terminar com Chavez, Gilberto, Ytalo, Robson, Jean Carlos, e os garotos David Neres, Luiz Araújo e Pedro. Além da queda vertiginosa de qualidade, é um excesso inaceitável de mudanças.

Neres, vítima mais recente da euforia precoce, perdeu três gols. O primeiro deles (veja abaixo) absolutamente imperdível até se tivesse 15 anos. Que aprendam a não exaltá-lo antes da hora. O garoto é talentoso e tem muitos ingredientes para se tornar um bom jogador. Isso não significa que será, vide João Schmidt, volante de bom passe, bom chute e bom cabeceio, mas que não consegue dar aquele passo decisivo para subir um degrau na carreira. Contra o América, repetiu a péssima atuação que havia tido contra a Ponte Preta, no Morumbi.

E como a missão aqui é não ser 8 nem 80, vale um elogio a Neres: seu posicionamento (veja abaixo). É raro um atacante de lado de campo estar tantas vezes dentro da área. É exatamente isso que ele deve fazer. Perdeu gols, mas porque estava no lugar certo, na hora certa.

Posicionamento de David Neres em lance de ataque do São Paulo (Foto: Reprodução)David Neres recebe cruzamento de Mena e ajeita para Chavez: ambos perderam (Foto: Reprodução)
Posicionamento de David Neres em lance de ataque do São Paulo (Foto: Reprodução)Neres, mais uma vez, entra em velocidade na área e conclui mal cruzamento de Mena (Foto: Reprodução)
Posicionamento de David Neres em lance de ataque do São Paulo (Foto: Reprodução)No segundo tempo, garoto estava perto de Chavez, como manda o figurino, para receber de Cueva (Foto: Reprodução)

 

O melhor garoto do São Paulo, hoje, é Lucas Fernandes, lesionado há meses. É o mais centrado, o mais pronto, o mais preparado. Mas se o projeto do clube for um 2017 mais condizente com seu tamanho, nenhum deles pode iniciar o ano como titular. São jogadores para conquistarem suas posições ao longo da temporada, disputando com gente de categoria. Se ganharem o carimbo de soluções, é enorme a chance de não prosperarem, não virarem absolutamente nada.

A derrota para o América-MG recoloca o São Paulo numa realidade dura, mas que precisa ser vivida, sem a criação de ilusões que só servem de consolo momentâneo, mas não levam a nada.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA