O inesquecível tour com Rogério Ceni no Morumbi

0
454

Coluna especial por Conrado Dias

 Dia 08/12/2015 será um dia que jamais esquecerei. Foi o 3º dia mais feliz da minha vida (atrás apenas do em que vi minha filha nascer e do dia em que conheci minha esposa). Um dia que jamais pensei que iria acontecer.

Cheguei ao Morumbi, por volta das 17h, para o Tour com o M1TO, que começaria às 19h30. Fiquei um bom tempo à beira do gramado, apenas olhando aquele estádio vazio, silencioso e imaginando que ele jamais seria o mesmo, jamais teríamos novamente um Morumbi lotado com Rogério Ceni no gol.

Fiquei ali, lembrando de todos os jogos que vi com ele em campo e o mais memorável, pra mim, foi o que meu pai me levou, contra o Santos em que Rogério fez um gol de falta no Zetti. O mesmo Zetti que, quando saiu do São Paulo, eu perguntei ao meu pai: “O que será do São Paulo sem o Zetti?”, e meu pai me respondeu: “Esse Rogério é bom, é batedor de falta”. E eu estava justamente ali, naquele momento para me despedir dele. Chegou a hora de ir onde começaria o tour, no portão 1, onde os jogadores desembarcam para o vestiário em dias de jogo.
Cem pessoas estavam ali, esperando pelo momento de ver Rogério, não como goleiro, mas como guia do Morumbi. Fomos divididos em 3 grupos, por cor de pulseira. Vermelho, preto e branco. O cadastramento começou na sala de imprensa do São Paulo. Depois de todos cadastrados com suas respectivas pulseiras, os torcedores que ali estavam começam a cantar o hino do clube, descendo ao vestiário e gritando o famoso “Puta que pariu, é o maior goleiro do Brasil. Rogério!”.
Chegando na área de aquecimento, temos um telão mostrando todos os cem gols e quando todos estavam atentos ao telão vendo o centésimo, eis que ele aparece. A emoção é enorme, as pessoas começam a gritar seu nome e novamente o refrão “É o maior goleiro do Brasil”!
Rogério chega e começa a agradecer a presença de todos e logo nos conta que viu aquele mesmo local (vestiário e sala de aquecimento) inundar por duas vezes. Diz que a água chegou até o segundo degrau, o mesmo que ele havia acabado de descer e que antigamente não havia nada a não ser as paredes. (Quem já fez o tour sabe como é a atual estrutura do local).
Como o vestiário é pequeno e não comportaria todos ao mesmo tempo, fomos divididos pela cor da pulseira para entrar dentro do vestiário e ouvir mais algumas de suas histórias. Rogério ficou na porta do vestiário cumprimentando cada um dos que entravam, sem exceção. Eu, um dos últimos a entrar, já cheguei no meio da conversa e quando o Mito liberou as pessoas para ficarem a vontade e olhar todo o vestiário, ele olha pra mim e diz: “Ué, só conseguiu entrar agora?” Eu disse que tinha bastante gente. No mesmo instante, ele me cumprimenta, me dá um abraço e diz para ficar a vontade. Esse foi o primeiro grande momento do tour. 
Saindo do vestiário, ficamos no início do túnel para o gramado. Rogério, mitando, nos diz que agora é hora de esquecer tudo e apenas sentir os sinos de Hell’s Bells e atravessar o túnel imaginando o Morumbi lotado em uma partida de Libertadores. Disse que é nesse momento que a vida do jogador muda, onde ele esquece tudo e pensa apenas no jogo e na energia dos torcedores. Já fiz o tour algumas vezes, mas nada é mais surreal do que cruzar esse túnel ao lado do Rogério Ceni. Não há palavras para descrever a sensação de ouvir Hell’s Bells ao lado Dele.
No gramado, fomos até o símbolo, para tirarmos uma foto em grupo, como jogadores. Novamente fomos separados pelas cores da pulseira e mais um momento inesquecível estava por vir. Rogério já ao lado da 3ª estrela, olha pra mim e diz: “Pode subir nessa estrela”. Rogério me autorizou a subir na estrela que ele conquistou para tirar uma foto ao seu lado, no meio de um grupo de 33 pessoas. É indescritível, é surreal!
Posteriormente, nos dirigimos aos alojamentos, onde Rogério morou por 4 anos. Chegamos a um hall, bonito e elegante, que antigamente funcionava como cantina para os que ali viviam. Ele nos conta que, muitas vezes, ali só tinha pão com manteiga e nada mais para comerem. Era aquilo ou passar fome, pois seu salário na época era apenas 2/3 de um salário mínimo. Rogério relembra de uma situação onde ele teve de escalar os muros do Morumbi e entrar pela única janela aberta neste refeitório, uma vez que o Morumbi fechava suas portas à meia noite ele não poderia mais entrar após esse horário. Quando fui embora, pra casa, olhei o muro que ele diz ter escalado e fiquei imaginando como ele fez aquilo, pois o muro é realmente alto.
Na sequência, fomos até a sala de TV e as acomodações. A sala, segundo ele, tinha apenas dois sofás, para comportar 30 atletas. A TV, de 20 polegadas, apenas com os canais abertos, já que na época não tinha tv a cabo. O telefone, aqueles que a maioria dos nossos avós devem ter, de disco e ainda com ligações limitadas. Cada ligação durava apenas 3 minutos e logo caia. Rogério conta que gastava boa parte do seu salário em fichas, para falar com os pais pelo orelhão que ficava do lado de fora do estádio. O quarto número 4, onde ele dormiu por quatro anos era realmente pequeno, muito pequeno. Não tinha janelas, um armário pequeno e duas camas. Imaginem vocês dividindo um guarda-roupa minúsculo com outra pessoa em um quarto muito apertado. Rogério viveu isso por quatro anos e conta que mesmo assim era feliz.
Na ultima parte do passeio, chegamos ao Salão Nobre, onde Rogério faz algumas brincadeiras, inclusive mostrando a todos o Severino, o Mascote “São Paulão”, que está sempre no gramado do Morumbi. De lá partimos para a sala dos troféus. Lá, o M1TO dá as suas ultimas palavras, agradece a presença de todos muito emocionado, já que será a ultima vez que estará naquele local como jogador e que, de agora em diante, passará a ser apenas torcedor. 
Neste momento, os torcedores começam, a gritar, em coro para que Rogério renove seu contrato, quando ele mita mais uma vez e com essas palavras diz: “Eu não posso mais, agora é o São Paulo quem precisa se renovar.” Em seguida, Rogério desce as escadas e se prepara para, na sala ao lado, com os troféus da Libertadores e Mundiais, tirar a foto com os cem torcedores que escolheram aquele dia 08/12/2015 para se despedir do maior goleiro, ídolo e personalidade que o São Paulo já teve. Histórico, Mito, indescritível, surreal, não existem palavras para descrever a emoção de estar neste Tour com o maior goleiro do Brasil, Rogério!
Fotos: Rubens Chiri

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA