Luís Fabiano: anjo ou demônio?

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Poucas figuras na história do São Paulo despertaram (e
continuarão despertando) opiniões tão opostas quanto Luís Fabiano Clemente. O
centroavante, que marcou 213 gols em 347 jogos na soma de suas três passagens
pelo Tricolor, é tão idolatrado por um lado da torcida quanto odiado pelo
outro. E, ao contrário do que muitos sugerem, essa ira não é exclusiva das
torcidas organizadas, haja vista a facilidade para se encontrar um torcedor “comum”
que agradece a saída do camisa 9.

Luís Fabiano e sua comemoração que se tornou característica: entre a ira e a idolatria (UOL)
O que torna mais complicada essa análise sobre Luís Fabiano
é um fato simples: ambos os lados utilizam retóricas verdadeiras para
justificar seus respectivos pontos de vista. A turma pró-Fabuloso fala dos mais
de 200 gols, que o colocam entre os três maiores artilheiros da história são-paulina, e de sua legítima paixão pelas três cores, ao ponto de ter recusado uma proposta
muito superior do SCCP em 2011 porque queria voltar ao Tricolor, clube que
ele sempre agradeceu por tê-lo resgatado duas vezes do pequeno Rennes, da
França. Foram várias as vezes que Luís Fabiano
declarou que, se não fosse pelo São Paulo, provavelmente sua carreira teria
fracassado e ele teria sumido de vez, já que fez apenas onze partidas somando
suas duas passagens pelo futebol francês e ainda era pouco conhecido no Brasil.

Já o lado “Luís Pipoqueiro” é taxativo ao declará-lo como o
artilheiro dos gols inúteis. Foram incontáveis as vezes que o matador do time
simplesmente não cumpriu o que dele se esperava e não decidiu uma partida
importante para o São Paulo. É verdade que futebol é coletivo, mas muitas
dessas vezes a culpa foi próprio LF9. Em 2012, por exemplo, no único ano de sua
última passagem em que ele realmente foi bem, deixou o time na mão duas vezes.
No Campeonato Paulista, tomou cartões amarelos bobos em dois jogos seguidos, o
que o deixou suspenso nas semifinais contra o Santos: São Paulo derrotado e
eliminado. Na Copa Sul-Americana, revidou uma agressão logo no início do jogo
de ida contra Tigre, foi expulso e ficou de fora das finais. Sorte que o
adversário era fraco e ele não fez falta…

O comportamento explosivo de Luís Fabiano é outro ponto de
discórdia. Uns adoram (pateticamente, ao meu ver) sua declaração diante do River
Plate, em 2003, quando ele disse que preferia ajudar na briga do que bater
pênalti. Ele foi expulso por dar uma voadora nos argentinos e o São Paulo perdeu a disputa de pênaltis. A turma
contrária lembra dessa e de outras vezes em que esse comportamento prejudicou o
time. Ao meu ver, a mais grave foi na Libertadores 2013. Expulso por xingar o
árbitro depois de o jogo já ter acabado, contra o Arsenal de Sarandí, foi
punido em quatro jogos e fez muita falta na partida de ida das oitavas de
final, contra o Atlético-MG, quando o São Paulo criou inúmeras chances claras,
mas sofreu a ausência de um goleador nato, só aproveitou uma bola e acabou
derrotado, sendo eliminado na rodada de volta.

Nem sempre Luís Fabiano foi esse jogador fraco de decisão.
No Rio-São Paulo de 2001, todos lembram de Kaká, mas o que ninguém fala é que
seus dois gols não foram fundamentais para o título são-paulino, já que o Botafogo precisa
vencer aquela partida por 3×0 para levar aos pênaltis. Isso porque Fabuloso
marcou duas vezes e foi decisivo nos 4×1 em pleno Maracanã, no jogo de ida. Na sua volta ao
Tricolor após mais seis meses no Rennes, viu o São Paulo perder várias decisões
seguidas, mas sempre deixou sua marca, tanto contra o Santos, no Brasileiro de
2002, quanto nos dois jogos contra o Corinthians na final do Paulista de 2003.
Foi ridiculamente xingado, assim como Rogério Ceni, após a eliminação da
Libertadores 2004. Mas jogou contundido nas semifinais contra o Once Caldas e
seus oito gols foram fundamentais para levar o São Paulo tão longe naquela
edição. Mesmo na seleção brasileira, marcou dois gols na final da Copa das
Confederações 2009, quando o Brasil perdia para os EUA por 2×0, sendo
fundamental para aquela conquista. Sem contar a transformação que sua geração
fez no Sevilla, onde o atacante também é idolatrado.

Minha visão pessoal sobre Luís Fabiano é ambígua. Por um lado,
tenho muito apreço por um jogador que de fato demonstrou um vínculo afetivo com
a camisa tricolor. Isso é algo que eu valorizo bastante. Por outro, fica a
frustração por sempre torcer para vê-lo decidindo um título a nosso favor, mas
isso nunca acontecer. O período 2001 – 2004 mostrou um Luís Fabiano evoluindo
muito, marcando gols importantes, mas sendo vítima de defesas tenebrosas
montadas pelo São Paulo (não dava para ser campeão brasileiro com Jean, Wilson
e Regis como opções para a zaga…). Mas a terceira passagem foi totalmente
frustrante. Após uma longa novela para sua estreia, por conta de uma contusão
em 2011, ele fez um bom 2012, mas depois caiu de vez. A partir de 2013, passou
a ser frequentador assíduo do Reffis. Em 2015, se arrastou em campo. Desde seu
retorno, sempre sofreu com excesso de impedimentos, fruto de um corpo que já não
responde como deveria.

Luís Fabiano queria ganhar um título importante, se tornar o
maior artilheiro da história do clube, mas foi vítima de seu temperamento e de
seu corpo. E escreveu seu nome na história do São Paulo, da mesma forma que se
eternizou como pauta para discussões calorosas entre os tricolores.

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